31 de Maio de 2011

2º Prémio de Conto

Cem anos. Há cem anos que a olho.

Oh! Como me doem os degraus gastos, outrora frondosos e verdejantes carvalhos, agora apoio para solas imundas! Estou velho, cansado, a minha madeira é cada vez mais escura e irregular, já nenhuma esfregona esfarrapada e ensopada em detergente elimina as camadas de pó entranhadas nas minhas fundas fendas. Estou fraco, sinto-me fraco; mas nunca por isso estremeci; por muitos elefantes que em mim saltem eu não estremeço. Não - posso ser velho, mas ainda sou um homem e homem que é homem não estremece!

Deus a mim não me deu o dom do movimento, nem da audição, nem da comunicação. Apenas vejo e sinto, mas isso chega-me, não me queixo. Chega-me para saber quem me pisa, para os avaliar, aqueles que me sobem e descem, para cima e para baixo, para trás e para a frente. Sinto o peso das velhotas abastadas que parecem ter preguiça de passar ao degrau seguinte, as solas de borracha dos desportistas que quase não me tocam, os saltos afiados que as mais vaidosas me espetam, o sangue dos descoordenados que se estatelam sobre mim, as lágrimas das moças sensíveis, os sapatos-pantufa daquele rapaz com uns setenta anos que me atravessam calmamente, os traseiros dos casais safados que ousam namoriscar em local público, não há nada que me escape!

Mas é nos momentos serenos, tranquilos, aqueles em que todos estão ocupados a trabalhar ou descansar, quando apenas sinto uma leve brisa vinda do infinito, que eu a olho, ai tão bela que ela é... Tão pura, tão perfeita, talhada pelos melhores escultores, admirada pelos mais lunáticos, ai tão única, aquele anjo de mulher!… Não sou homem de mudanças, sou mais dado à fidelidade, o casamento é o meu sonho. Bem, tenho que admitir que por vezes os meus olhos são obrigados a ver uma ou outra saia aberta, mas são apenas umas olhadelas, nada de mais! Mas como se casam um homem e uma mulher que não se podem mexer? Não casam, não podem casar... O que eu dava para lhe declarar o meu amor, este tamanho amor que me percorre que nem uma colónia de bichos-carpinteiro, ai tanto amor! Mas também, ela nunca me aceitaria, aquele ser tão superior, nunca olharia para mim. [...]

Inês Freire de Andrade, 11º B

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