25 de Maio de 2011

1º Prémio de Texto Dramático

O espelho

(drama existencial em 1 acto)


Acto I
Cena I


Um quarto muito pouco ornamentado, predominância de cores castanhas e envelhecidas. Uma cama, uma cadeira, um chapeleiro todos típicos do início do século XX. À direita, na parede, um grande espelho. Uma mulher vestida de roupas de luto à século XVIII observa o espelho.
(Entra princesa)

Princesa: O que aconteceu?
Viúva: Há um novo espelho no quarto.
Princesa: E então?
Viúva: É sempre um momento de grande solenidade, quando um lugar recebe um novo espelho.
Princesa: Porquê?
Viúva: Porque é como se toda a realidade entrasse por ele adentro e se duplicasse.
Princesa: O que vês no espelho?
Viúva: Um cadáver. E tu?
Princesa: Não vejo nada. Não me deveria ver a mim?
Viúva: O espelho reflecte sempre a verdade.


Cena II
(Entra Rapaz)


Rapaz: Há um novo espelho no quarto?
Viúva: Há um novo espelho no quarto.
Princesa: O espelho não me reflecte. E tu, o que vês?
Rapaz: Vejo-me difuso.
Princesa: Veres-te difuso é pior do que não te veres de todo.
Rapaz: É? Porquê?
Princesa: Se o espelho reflecte sempre a verdade, eu nem existo, mas tu és difuso. Enfrentas uma existência esponjosa e triste.
Viúva: O espelho reflecte sempre a verdade. (Pausa, retoma num tom diferente) porquê a existência em vez da não-existência?
Rapaz: Porquê a meia-existência?
Princesa: Porquê a falsa existência?
Rapaz: (para a Princesa) Lembras-te daquele rapaz que fazia sempre com que os alarmes das lojas apitassem quando ele saía? Mesmo sem ter roubado nada?
Princesa: Sim. Lembro. Quando era moça julgava que isso acontecia porque ele roubava com os pensamentos.
Rapaz: Talvez fossem os pensamentos dele que os outros roubavam.
Viúva: Não se pode roubar um homem.
Princesa: Talvez se lhe possa roubar a alma....
Viúva: A alma de um homem nunca lhe pertence, e por isso não pode ser roubada.
Princesa: Então porque não apareço no espelho...?
Viúva: Porque se calhar nunca tiveste alma.
Rapaz: Ou talvez a tenhas tido demais.


de Simão Cortês, 12º J

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