16 de Maio de 2011

1º Prémio de Poesia

Começamos hoje a divulgar os textos vencedores do VI Concurso Literário Camões.
O 1º prémio de poesia foi atribuído ao poema "Abandonar a razão" de João Matos, do 11º J.

ABANDONAR A RAZÃO


Só a pinga pura cura
a dor da separação
(Popular Brasileiro)

Só a pinga pura cura
o que dói no coração
e só ela nos atura
quando toda a Literatura
morreu de imaginação.
Luís Filipe de Castro Mendes

Só a pinga pura cura
a dor da separação,
e só ela é cura pura
ao que dói no coração.
mas não cura a pinga pura
o que realmente dura:
vistos males da razão…
para esses, a Literatura,
uma aparente cura
à etérea dura loucura
da falta de imaginação;
um remédio sem mistura
onde ninguém verá secura,
que tão longe em mim se faz
a razão da Literatura…

reparai que nem a pinga pura
chega onde a Literatura
chega pela razão:
uma vai pela secura
da falta de vontade
da fraca brandura
e trabalha as dores da imaginação,
a outra é a pura cura
um remédio sem mistura
que dura como não dura
a dura cura pura
aliviando, assim,
a dor da separação
porque, se para a vida há cura,
será ela a Literatura,
que nos retoma,
em brandura,
como eficiente cura,
às longas cadeias da razão.

faz-se ao contrário, a Literatura,
da tal pinga pura e dura:
só a Literatura nos segura
quando a loucura nos cinge
à pinga pura
da dor da separação.
que não há mais nada senão
a pura dor da separação,
uma dor de coração… que
falta de razão!

nada há de mais errado
que tomar por certo
que a Literatura não te salvará
nas falhas do coração,
pequenos lapsos temporais
que, fugindo à razão,
chamamos de loucura,
que um louco transforma
em Literatura
através da pinga pura
e também
da razão

mas e na pinga pura,
que aparentemente cura -
sem brandura!... -
todos os males do coração:
onde está a Literatura?
escondida na verdura
do whisky da razão.

que venha, então, a Literatura -
seja ela em ti cura
(não como a pinga pura,
cura em mistura,
cura sem brandura)
da dor da separação
e não veja em ti brandura,
ó tão certa Literatura,
certa pura dura cura,
falsa vontade na razão.

Não,
põe-se cobro à cura:
abandona minha alma,
ó exacerbada razão,
deixa-me dormir um pouco
nos campos da lentidão…
abandonem-me o espírito,
fracas vontades do coração,
que me consuma então a dor -
a dor da separação –
e abandono a Literatura
e qualquer tentativa de cura:
tudo em mim é secura
tudo em mim é vontade
de me submeter à pinga pura
que me oferece a letargia
essa doce e falsa cura
da falta de razão…

destilo, agora, a Literatura;
decanto, assim, minha loucura
desta pinga pura e dura,
aparente remédio em mistura
com a dor da separação;
vejo tudo e nada vejo
que nesta longa loucura
tudo em mim é vontade
de me submeter à pinga pura

e abandonar a razão.

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