23 de Maio de 2011

1º Prémio da modalidade - Conto

Scribis ergo sum

A melancolia típica das tardes de princípio de Outono derretia-se sobre a cidade de Lisboa… Aquela melancolia que nos atormenta no silêncio fingido dessa estação a que outra língua chama ‘The Fall’, devido à queda das folhas douradas, belas e mortas, ou também pela queda lenta do nosso espírito numa depressão miúda que insiste em crescer. Talvez pelo regresso à realidade depois do fim das tardes de Verão, talvez pela aproximação da data de nascimento do Messias desprezado todo o ano, ou talvez ainda por causa de uma depressão maternal partilhada com a deusa Deméter, arrasada por ver arrastada para o inferno, mais uma vez, num ritual que dura desde que o mundo é mundo e durará enquanto mundo houver, a sua filha.
As escadas do metropolitano estavam, como sempre, imundas e húmidas. O frio, que não é bem frio, mas uma espécie de límbica e indecisa temperatura, perfurava cada poro da nossa pele e gelava-nos a alma, já que os ossos tínhamos mornos.
O meu bilhete não tinha dinheiro; demorei a procurar as moedas e levei ainda mais tempo a realizar uma operação que a tecnologia deveria fazer por mim. Foi nesse momento de frustração contra as máquinas que percebi que em todo o espaço cinzento e mortiço, tu eras o único brilho que restava. A última tentativa melancólica de uma Primavera vencida para se manter viva e espalhar os últimos resquícios de verdura por aquele chão de pedra. [cont.]


Simão Cortês, 12º J

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